Tempo de leitura: 5 minutos
1. O Problema e a Tolerância do Pecado na Igreja
Que coisa horrível havia na Igreja de Corinto e que às vezes há nas igrejas de hoje e qual era a atitude da igreja contra esse mal?
O problema que existia e era tolerado era a fornicação ou imoralidade. A palavra grega para essa imoralidade é porneia (de onde vêm os termos “pornô” e “pornografia”), que, dentro do contexto bíblico, significa quaisquer relações sexuais ilícitas.
Havia na igreja um homem que se relacionava sexualmente com sua própria madrasta. Quer o pai estivesse vivo, morto ou fosse divorciado de tal mulher, essa não era uma prática aceitável nem pelo Velho Testamento (Lv 18:7,8; Am 2:7), nem pela própria Igreja (conforme determinação do Concílio de Jerusalém em At 15:20) e tampouco pela sociedade da época.
A sociedade secular tratava tais práticas como incestus, adulterium (adultério) e stuprum (crime sexual ilícito). Isto fica explícito no texto bíblico quando Paulo afirma no versículo 1 que se tratava de algo “...que nem ainda entre os gentios se nomeia…”. Ou seja, era uma prática condenada pelo mundo, mas que a igreja — que deveria servir de modelo — simplesmente tolerava. Trágico! Isso a colocava em uma posição pior do que o próprio mundo em seus pecados.
2. A Causa da Inércia: Orgulho e Soberba
O pior é que a igreja encarava essa situação com naturalidade porque estava mergulhada em uma soberba e alta autoestima que a impedia de enxergar e corrigir a prática (v. 2). A soberba é pecado e, como todo pecado, cega o entendimento.
O fato é que tal coisa horrível precisava de correção, mas os crentes pareciam não se importar. Eles estavam dominados por jactância, orgulho e vanglória; ao invés de lamentar o pecado no seu meio, estavam se orgulhando.
Paulo os reprova severamente. Usando a analogia do fermento (igual ao da laranja podre), ele alerta: “Não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa?“ A tolerância com o erro resultaria em uma comunidade espiritualmente desvirtuada e podre.
A igreja deve oferecer um modelo para a sociedade perdida. Ela é diferente, formada por pessoas “santificadas em Cristo” e “chamadas santas” (1.1) — e a santidade pressupõe pureza. O pecado é sujeira, e Deus não se relaciona com a sujeira do pecado. Por isso fomos purificados pelo sangue de Cristo.
3. A Decisão Disciplinar de Paulo
Diante disso, o Apóstolo Paulo, mesmo ausente fisicamente, coloca-se como presidente da assembleia e decide o que deve ser feito. Invocando o nome de Jesus Cristo, ele chama a igreja à união espiritual com ele para que o faltoso:
“Seja entregue a Satanás para destruição da carne, para que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus.” (v. 5)
Esta é uma decisão dura, mas com finalidade nobre: a salvação no Dia do Senhor (ver 1:8; 3:13).
Mas como alguém entregue a Satanás pode ser salvo? A ideia é que, ao ser colocado fora dos domínios e da proteção da Igreja (corpo de Cristo) e entregue ao domínio do maligno, o peso da excomunhão traria o arrependimento e a consequente cura da alma. Assim, a finalidade da disciplina é medicinal — tanto para o indivíduo quanto para a comunidade, visando amputar um membro doente para que não contamine os demais. Se alguém tiver um câncer no nariz e for necessário amputá-lo é melhor do que deixá-lo contaminar todo o corpo.
4. Limites da Comunhão e a Didática da Disciplina
Nos versículos 9 a 11, Paulo ordena que a igreja não se “associe” com os imorais que estão dentro da comunidade. Evitar os de fora seria impossível, mas quanto àquele que se diz irmão, Paulo é categórico:
“...se alguém, dizendo-se irmão, for fornicador, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais.”
Note que, para o Apóstolo, tais pessoas nem são, de fato, irmãos. O cristão não pode conviver passivamente com o pecado — nem com o seu, nem com o da irmandade.
Uma reflexão sobre a aplicação da disciplina: Lembro-me de uma surra que meu pai me deu quando eu era criança. Apanhei tanto que fiquei caído por algum tempo, pensando: “O que foi que eu fiz?”. Nunca me esqueci daquilo. Demorei a entender exatamente o mal que tinha praticado para merecer tal agressão. Quando andamos sob a influência dos outros, coisas erradas parecem normais, e só fui entender o erro de fato quando já era adulto.
Por isso, minha conclusão é que nenhuma disciplina deve ser aplicada sem uma conversa mansa, didática e pedagógica (Gl 6:1). A verdadeira “vara” da disciplina é a Palavra de Deus. O problema é que, às vezes, falta-nos maturidade e inteligência emocional para lidar com isso.
5. Conclusão: Arrependimento e Restauração
Apesar da dureza da medida tomada em Corinto, o método funcionou. Conforme vemos em 2 Coríntios 2:5-11 (assumindo que se trata da mesma pessoa repreendida), a disciplina provocou uma tristeza profunda no homem (2 Co 2:7), mas gerou o fruto desejado: arrependimento, perdão e reconciliação.
Lembremo-nos de que Paulo tinha informações das questões disciplinares da Igreja através de cartas ou notícias dos que o visitavam, e que os fatos podiam ser controversos. Não havia redes sociais.
A disciplina bíblica, quando aplicada com o coração correto e a didática certa, não visa a destruição do pecador, mas a sua plena restauração e a pureza da Igreja em geral.
Descubra mais sobre Pr Odivan Velasco
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.